Olho para as pessoas lá em baixo; sempre tive medo de altura, porém agora é diferente. As pessoas estáo minúsculas daqui do quadragéssimo oitavo andar, e toda a vertigem sentida por esta visão amendrontaria qualquer animal que ocupasse meu lugar.
Eu acabo de descalçar-me para melhor sentir a borda do cume do edifício. Sinto ainda os efeitos dos choque térmico resultante. Gosto dele: sinto-me vivo. Se fosse possível, gostaria de levar essa recordação para a minha morte.
Decidi que iria suicidar-me ontem à noite, logo após um programa de televisão. O programa era horrível, mas ele não teve nenhuma relação com o meu iminente ato. Usei-o apenas para demarcar o estopim da minha decisão. Durante todo ele fiquei pensando sobre a minha vida, sobre minhas decisões, sobre o que eu queria ser no futuro. Foi necessária apenas uma conclusão, tirada desses pensamentos, para eu ter certeza de que devo jogar-me do edifício mais alto existente em Porto Alegre.
A conclusão é a seguinte: preciso tentar voar.
Pode parecer uma conclusão pueril e sem conexão essa a minha. Até demasiadamente ingênua, resultante de alguma inspiração provinda de alguma história do Super-Homem. Porém, eu sempre quis ter essa sensação de sentir o ar batendo em meu rosto enquanto eu deslizava entre as nuvens. Aprender as rotinas das aves e, quem sabe, até segui-las em alguma jornada em busca de sobrevivência. Poderia imitar Ícaro e tentar tocar o sol com minhas mãos. É claro que não conseguiria, porém iria simular o fadado dia. Uma homenagem póstuma. Se pudesse voar, no começo, antes de ir migrar com os passarinhos, iria, por algum tempo, voar ao meu emprego, apenas para apagar a minha fama de funcionário que chega sempre atrasado. Se eu pudesse voar, sentiria-me extremamente feliz.
Tudo bem, eu confesso, sofri influência de Super-Heróis. Porém, a verdade é que nunca cheguei perto de ser um. Nunca fui nem herói; nem vilão. O máximo conquistado, por mim, dentro dessa analogia, foi tornar-me figurante entre a multidão.
Preciso contar algo para você entender-me: durante toda a minha vida fui estigmatizado por nunca tentar. Sempre tive medo do inesperado; sempre me acomodei em situações confortáveis. Um exemplo angustiante são as minhas atitudes a respeito da minha profissão. Trabalho a vinte anos no mesmo emprego. Não tenho nenhuma possibilidade de crescer profissionalmente lá dentro. O meu salário é ínfimo, apenas o necessário para as minhas passagens e refeições. Entretanto, nunca tentei procurar outro ambiente para trabalhar. Nunca tentei. Nunca. Se você está curioso para saber qual a minha função no trabalho, espero que me respeite. Prefiro não contar sobre. Apesar de representá-lo por vinte anos, sinto-me envergonhado em descrevê-lo.
Voltando aquele programa ridículo assistido por mim. Foi após ele que me rebelei. Que droga, sempre fui tão recatado. Sempre no mesmo emprego. Sempre na mesma vida. Sempre mais ou menos. Nunca ousei. Nunca falei um palavrão. Nunca tive uma namorada. Agora isso tudo não mais importa. O importante, agora, é a realização do meu sonho: voar.
É claro que morrerei. Não sou ingênuo. Entretanto, vou tentar.
O piso do edifício ficou quente com o calor dos meus pés. Sinto uma certa reciprocidade entre nós. Será que ele ficar cálido é uma forma de demonstrar seu consentimento com a minha atitude? Acenando sua satisfação de encontrar-me sobre ele?
Olho para o chão. A vertigem já não é mais forte que a minha coragem de tentar. As pessoas de lá não suspeitam que daqui a alguns minutos dois passos para o nada modificarão o dia delas. Que dois passos para o nada resultará em um corpo retorcido no chão.
Respiro fundo. Fico com os braços grudados no corpo. Respiro fundo, novamente. Penso em toda a minha vida. Lembro do medo do inesperado. Lembro das tantas vezes que não tentei o novo. Por isso tudo, reforço a minha decisão.
Então eu cedo dois passos ao nada. E caio.
Estou caindo. Preciso tentar voar. Preciso tentar. Tentar. Tentar. Bato as mãos, imitando as asas de uma ave. Que cena ridícula. Mentalizo estar voando na direção do céu. Nada. Estou caindo, isso sim. Rumo a minha morte. Desespero. Vou sujar ainda mais a calçada imunda da cidade.
Entretanto, parece incrível, mas uma sensação maravilhosa toma conta de mim. Não por eu ter desistido da minha vida, e sim por eu ter, finalmente, tentado fazer algo por ela. Sinto que tudo poderia ser diferente. Percebo apenas ser preciso ousar uma única vez para, assim, começar a ousar em todos os lados da minha existência. Precisava apenas de um passo. Apenas um passo para começar a minha revolução pessoal. Somente agora aprendi.
Percebo que estou a metros do chão.
Fico triste.
Gostaria de poder voar para voltar ao topo e, assim, transformar a minha vida.