sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Um sonho. Uma prisão. Uma luz.


Liberte-se. Grite bem alto, para que todos possam ouvir e para que vejam que você já não se importa mais com eles.

Jogue-se. Do lugar mais alto que puder, para que todos vejam que você já não tem mais medo da altura e muito menos de que o vidro se quebre.

Dance. Da forma mais desengonçada possível e com as mais diversas caretas.

Ria. Com o mais alto sorriso que você puder alcançar.

Brinque. Fazendo piruetas e dando cambalhotas.

Para que todos vejam...

Para que todos vejam que você não os enxerga mais como antigamente. Sua visão está ofuscada pela luz que te ilumina. Você não consegue mais ver as pessoas, com seus olhares inquisidores, tentando encontrar defeitos em você, como antigamente. Essa luz colorida que te atinge, te acolhe: protege-te. Cria uma aura linda, tornando, assim, o mundo o teu palco.

Mas então a luz se apaga. As cores foram embora deixando apenas tons de cinza. A sociedade agora te pede que não grite dentro do ônibus. Que jamais brinque na chuva. Que não faça caretas. Que não dance igual a um louco. Que não faça piruetas. Que loucura!! 

Você quer ser livre. Quer jogar-se contra o vento. Correndo contra tudo e todos. Quer ser uma dissidente de tudo que é posto em seu caminho.

A luz acende novamente.

Volto a ver você, nadando nesse mar de sonhos. Brincando com suas amigas, como se fossem crianças felizes. Eu tento te encostar, mas não consigo. Você é ágil e não suporta a possibilidade de se acomodar em somente um lugar. O movimento é a sua estação. Somente nela você  sente-se íntegra: na mudança.

Eu continuo aqui em baixo com os meus aparelhos eletrônicos que registram cada movimento seu. Tenho medo de esquecer o que vejo, por isso registro cada gesto. Minha cabeça voa assim como o teu vestido. Eu sou um tolo.

Ajeito a minha roupa. Cuido para não encostar em outra pessoa com a minha mochila. Mexo no meu cabelo. Penso em algumas tristezas. Critico alguém que está ao meu lado. Sorrio disfarçadamente.

Você pede para eu te aplaudir e eu timidamente consigo. Você me pede para gritar e eu timidamente consigo. Sou um sucesso! Mas agora você pede para eu me jogar na piscina? Que infelicidade, isso acaba comigo. É demais para mim. Nunca conseguirei mergulhar como você. Por quê? Acho que estou tão preso nos modelos que a sociedade ditou como de pessoas normais que nem consigo me mover.

Preciso escapar, eu sei, desse plástico enorme que moldaram em mim. Eu não o vi. Eu estava dormindo quando fizeram isso comigo. Temo que seja impossível tirá-lo agora. Penso que seja tarde demais.

A luz se apaga novamente e então eu vou embora com essa desilusão. Porém, durante a estrada escura até a minha casa, penso em você. Rememoro aquele seu olhar que transbordava toda a fúria contida que você possuía. Sinto uma sensação diferente. Um sentimento que me faz repensar as minhas atitudes. Percebo que preciso dançar, rir e dar piruetas também. Eu quero ser livre assim como você é...



Eu invejo a tua fuerza bruta.